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"GAVETAS"
Tento dobrar tua lembrança como uma folha de papel e guardá-la na gaveta.Junto com todas as outras, arrumadas na desordem natural de uma gaveta de papéis .Por mais que pareça estar cheia, sempre cabe ainda qualquer coisa. Ás vezes uma lembrança se amassa e vai lá para o fundo. E fica lá até que chegue o dia da faxina da gaveta. O dia em que remexo em tudo. Que relembro com carinho ou mando para o cesto de papéis as que ficarão esquecidas. Foi lá que encontrei a tua. No fundo da gaveta. E agora, a cada vez que a abro, a tua lembrança pula para fora, embalada numa brisa invisível. Como uma folha na dança do esquecimento de um dia de outono. E nesta dança eu divago como um anjo perdido no espaço, atormentado. E chego a te ver, não mais lembrança, mas presença. Presença que se desfaz antes de um beijo. Antes de... Antes. Pacientemente eu a dobro com carinho e a coloco de nôvo na gaveta. Talvez esperando que ela escorregue novamente para o fundo. Esquecida. Tão esquecida quanto você de mim. Mas não, seu destino nunca será o cesto de papéis. Que fique, ao menos, na gaveta.