PSEUDO CRÔNICAS...


FRIO! ?

O nosso quente e ensolarado Rio está submerso em nuvens de chuva e frio. Particularmente, nada contra a chuva, inspiradora dos melancólicos. Mas tenho uma diferença antiga com o frio. Tenho HORROR a frio! Seja friozinho carioca, seja frio grande porte europeu. E quem diria, a cinzenta Londres nos esnoba com um céu ensolarado e inacreditáveis 38 graus! As razões deste meu desgosto podem até ter explicações biológicas: acho que meu termostato interno não funciona muito bem. Certamente não é questão de hábito; apesar de ser carioca, vivi 17 anos em climas frios. Quase metade de minha vida! Acontece que o frio me paralisa, tenho vontade de hibernar e só acordar quando o calor solar for suficiente para me aquecer o corpo e o coração.. Ah, sim, o frio é romântico... Lembro de contemplar o mediterrâneo protegida pelo que os franceses chamam de ¿cache- misère¿ (esconde miséria - literalmente). São os casacos que te cobrem tão inteiramente que pouco importa o que você tenha por baixo: dá até para sair de pijamas! Lindo o mar em sua revolta fria, o vento nas árvores desfolhadas, as luzes de natal e todo o resto. Enfim, ha sua beleza no frio. Mas não gosto de senti-lo na pele. Não gosto que ele penetre e me faça encolher, que me faça tremer, me empurre a querer me esconder. Nem é preciso grandes frios. Sou do tipo que sempre leva um casaquinho no cinema. Que, no outono carioca, basta uma nuvem passar para que me arrepie. A típica friorenta. Gosto do sol, do calor. Deste calor que faz a gente transpirar, quando as roupas só servem para proteger o pudor, quando tudo o que se deseja é uma ducha fria ou um mergulho no mar. Sou como o pingüim do desenho do Disney que sonha em chegar aos trópicos e, uma vez em sua ilha ensolarada, contempla fotos do pólo sul. Em fotos e imagens, é lindo! No frio, a gente até esquece do corpo que tem, escondido, protegido. Sentir a pele é como descascar cebolas, tantas camadas até ela. À flor da pele não cabe no frio. Só me resta então fazer como quando era criança e ir desenhar um sol na areia da praia. Dizem as línguas infantis que é tiro e queda para que ele volte. Ou então, passar uma temporada em Londres! Quem diria, tão quente e ensolarada....


Copacabana

Copacabana, a princesinha do mar me engana. Ela engana quando veste seu vestido de festa e exibe a praia, torneada com o Pão de Açúcar, visão panorâmica dos cartões postais. Exibe suas areias numa sensualidade preguiçosa e matreira. Brilha como se o sol existisse apenas para ela. Engana porque é mais que um vestido de festa. É a própria festa humana. Sopa social concentrada, picadinho de vidas tão diferentes. Copacabana é a festa da democracia em suas areias. Areias onde caminham ilustres como Paulo Coelho e os descamisados da favela. Com seus baús de sobrenomes na Av Atlântica, e seus pombais de conjugados onde as profissionais rezam seu sono diurno. Em Copacabana se anda de chinelo, antes das havaianas virarem moda. Desfilam grifes no caminho do Bingo do Posto 6, onde a figura de Drummond ainda permanece, em eterna contemplação. Em Copacabana, se anda... Maltratada como a Amélia, ela não perde a pose. São dela também a infância perdida que se abriga nas ruas, lembrando que o champanhe das coberturas não mata a sede de todos. Mas Copacabana é princesa e não perde a majestade. Digam os olhos dos turistas, embevecidos. Tantos cantos e recantos de histórias. Cada um tem a sua. Minha avó nasceu numa outrora casa, onde hoje fica o Bar do Bico. Botequim reformado com neon que enfrenta as 24 horas dos dias sem fechar as portas. Aqui somos todos vizinhos, ilustres e não ilustres, as paredes são muito próximas. As janelas, retalhos de vidas tão distintas. Pés descalços e calçados a partilhar as mesmas calçadas. Copacabana, tão falada, por vezes mal falada. Nunca foi "fashion" como Ipanema, não lança modismos... Serena, enverga seu vestido e vai ao baile. Não importa o tecido puído, a maquiagem tosca, Ela não precisa. Afinal, ela é a Princesinha do Mar!

by Stormy


DIA DE CHUVA

Estava andando na rua, num desses dias chuvosos que não inspiram o carioca e o trânsito entope como os bueiros da cidade. Me sentia num clima londrino com todos os tons de cinza que me passavam pela alma. A água das poças, os carros que passam, os ônibus que presenteiam com ondas os passantes, os mendigos ainda mais miseráveis sob a chuva, as pessoas com pressa., a chuva fina que cai. Penso se não poderia encontrar um rosto amigo sob a chuva. Mas sei que não ha ninguém a encontrar. Imagino minha figura sob a chuva: os cabelos molhados, o olhar que passeia. Não gosto de guarda-chuvas. Vejo um carro passar com alguém bem vestido e fico feliz de que ninguém me veja assim. É bom andar anônima na chuva. É bom não ter que fingir um estado de espírito e se deixar levar pela melancolia. Pelo menos um pouco... As pessoas passam apressadas e não te vêem. Lanço olhares aqui e ali enquanto caminho. Penso que caminho tomar - gosto de variar os trajetos, passar por ruas diferentes, trocar de calçada - é como tentar mudar o ângulo de visão das coisas. Às vezes, basta mudar de calçada e encontrar algo ou alguém. Às vezes isto não tem a menor importância, outras vezes pode fazer toda a diferença.


Homenagem a Arnaldo Jabor

Se vc ainda não leu algum texto de Jabor falando da ditadura da beleza, não sabe o que está perdendo. Infelizmente não tenho algum texto para colar aqui e também não tenho seu talento como cronista. Mas nunca esquecerei da maneira quase poética com que ele tratou da famigerada celulite! Chegou a comentar suaves e eróticas lembranças da celulite de sua professora... Li em algum lugar outro dia que 95% das mulheres possuem celulite. É um absurdo pensar no número de mulheres que são suscetíveis de estarem infelizes com o próprio corpo. Deviamos escutar mais o Arnaldo! Deviam colocar seus textos na boca de um ator da novela das oito! Quando eu tinha 13 anos, minha mãe me levou ao médico pois esta terível praga começava a se instalar em minhas delicadas coxinhas. Do alto de seus diplomas ele disse: mas ela tem um corpo feminino... Na época, isto soou-me como um elogio. Mas logo a sociedade me mostrou o contrário. Qual mulher não procurou a melhor posição ou iluminação para esconder este flagelo? A celulite é basicamente feminina. Mas é certamente algo que gostaríamos de eliminar de nosso vocabulário. Percebi que um namoro de dois anos estava chegando ao fim quando ele me perguntou na praia: vc está ficando com celulite? Meu Deus, pensei, eu as tenho desde os treze anos e só agora ele percebe! A celulite anunciou o fim do namoro. Será que o amor é mesmo cego? Tenho o corpo bem feito e estou no meu peso, mas há sempre o fantasma de que estes desgraciosos nódulos desiludam um olhar... Voltemos a Jabor... Ele se revolta contra esta busca de mulheres para serem um carbono da beleza idealizada pelo consumo. Ele deveria se tornar um símbolo sexual! O tipo de homem que aceita a mulher natural, com o qual vc pode fazer amor sem se preocupar com detalhes físicos e simplesmente se deixar levar pelo prazer que o corpo pode ter. Sem neuras, com a luz acesa, o sol entrando, completamente nua de corpo e alma. Mas uma dúvida ainda persiste: quem odeia mais a celulite? Os homens ou as mulheres?