"A Velha Senhora "



Todas as manhãs, bem cedo, junto com o sol, ela pedia à sua acompanhante que a levasse a seu

passeio em frente ao mar. Era sempre o mesmo ritual: pedia que lhe escovasse os já ralos e

brancos fios até que ficassem a seu gosto; colocava os brincos, perfume, e escolhia roupa e

sapatos com esmero. Ainda tinha ares de grande dama ao deslizar com as mãos trêmulas o batom

nos lábios finos e murchos.

Olhava-se no espelho e não hesitava em mudar algo que não lhe agradasse.

A acompanhante já conhecia este ritual que se repetia a cada manhã e achava graça de tanta

vaidade em uma velhinha que logo completaria 90 anos. Mais parecia aprontar-se para um baile!

Ela nada dizia pois sabia que a velha era de poucas palavras e logo se irritava com perguntas à

toa. Ainda era bem lúcida, mas falava sozinha, mais parecendo pensar alto. Ai da acompanhante

se respondesse quando não era a ela que a velha se dirigia... Mas a acompanhante também era

do tipo calado e elas se entendiam mais por olhares e gestos. Ela sabia que a velha tinha sido

muito rica e vivido muitas histórias e viagens. Haviam fotos pelo apartamento de lugares

distantes e exóticos, com sua patroa sempre elegante e bem acompanhada. Mas, ao contrário da

maioria dos velhos, ela não falava do passado. Gostava de que lhe lesse livros e assistiam juntas

à novela. Não haviam parentes e apenas algumas amigas a visitavam de tempos em tempos.

Finalmente aprovado o figurino, estavam prontas para sair. Sempre achava curioso como os olhos

da velha sentiam-se humilhados quando encaravam a cadeira de rodas e, uma vez nela instalada,

levantavam-se, confiantes e dignos.

E lá se iam, as duas, em carruagem da idade, ver o mar. Andavam sempre até a sombra de uma

amendoeira, onde os pescadores recolhiam suas redes e arrumavam o pescado do dia.

Chegavam pontualmente neste momento. Havia entre eles um rapaz forte e bonito. Os braços

musculosos e um sorriso fácil. Sempre cantando e falando alto. Elas os observavam de longe,

mas ele se destacava por sua beleza selvagem e doce ao mesmo tempo.

A acompanhante chegava a pensar que era para ele que a velha se embelezava. Naqueles

instantes, ela podia ver o brilho nos seus olhos e suas mãos mais tensas, segurando forte a

cadeira. Parecia querer levantar-se. Ajeitava as mechas de fios brancos com as mãos ossudas,

ornamentadas com as unhas vermelhas e o anel de safira que teimava em usar.

Assim que o rapaz terminava o serviço e desaparecia, a velha se impacientava, reclamava do sol,

e a acompanhante sabia que era hora de voltar.

Mas, naquela manhã, o rapaz parecia ainda mais contente de si do que de costume. Ele veio em

direção às duas e, com um salto meio moleque, agarrou uma flor amarela de uma árvore e veio

depositá-la no colo da velha senhora. Lançou-lhe um sorriso encantador e partiu, cantarolando.

Elas voltaram para casa, e a acompanhante pode flagrar lágrimas que rolavam pelo rosto da velha

senhora. Mas ela sorria. Sorria como uma adolescente apaixonada...



by stormy