"ELA"


Um Conto de StormyAngel


Ele acordou antes que o despertador tocasse. Era sempre assim. Tinha tanto horror àquele barulhinho irritante, que o antecedia. Olhou para o lado e viu um chumaço de cabelos emaranhados: sua esposa dormia. Levantou maquinalmente e fez tudo como fazia todos os dias.

Ainda não pensava em nada. Os problemas ainda não tinham acordado em sua mente. Gostava destes instantes de silêncio e solidão que não requeriam sequer concentração para executar tarefas repetidas do quotidiano matinal.

Ia ligar a cafeteira, quando se lembrou de que estava queimada. Mais um eletrodoméstico inutilizado. O dinheiro estava curto, curto demais. Enquanto colocava a água para ferver, os problemas foram levantando-se preguiçosamente. Foi quando se deu conta de que o café tinha acabado, teria que tomar um chá. Compras de supermercado, só dali a uma semana, quando o salário saísse. Se o café ainda se mantivesse na lista das prioridades, poderia saboreá-lo dentro de alguns dias. Tanta coisa já tinha sido cortada do orçamento. Não sabia se o velho e quentinho café iria sobreviver. Tomou seu chá e voltou ao quarto. Sua esposa ainda dormia. Olhou para ela se perguntando se ainda era bela. Sim, ela ainda era, mas ele não tivera muito tempo para notar ultimamente. Pensou se a falta de dinheiro os separara ou se era o que ainda os mantinha unidos. Até para se separar era preciso dinheiro. E duas casas, não, não podia nem pensar...

Pensou se ainda a amava, mas como saber? Eram dois seres unidos pela sobrevivência, no stress de arrumar uns trocados para o lanche da escola das crianças... As crianças. Foi até o quarto delas. Dormiam tranqüilamente. Sentiu uma angústia no peito quando lembrou das mensalidades atrasadas da escola.

Se continuassem assim, no ano seguinte elas teriam que ir para a escola pública. Ele fraquejou e teve vontade de chorar. Como havia descido tão baixo? Em dois anos sua situação tinha se agravado terrivelmente. Sua esposa foi demitida do emprego de secretaria executiva. Emprego que ela não achava a sua altura, com seu mestrado em Letras. Desde então, não conseguia outra vaga. E ele, de gerente comercial de uma grande empresa , amargou um corte de pessoal e acabou como vendedor em loja de móveis. Venderam o carro, a aliança de diamantes de noivado, até a prataria da mãe dela. As vendas tinham caído tanto que ele se perguntava se ainda iam garantir o mínimo dentro de casa.

Olhou-se no espelho no hall de saída e tudo o que viu era um fracassado, um impotente. Pensou que, se tivesse um seguro, melhor seria se jogar no trilho do trem. Mas nem isto tinha.

Sacudiu a cabeça, tentando espantar estas idéias, não reconhecia aquela imagem que o espelho lhe mostrava. Saiu de casa com os passos pesados e difíceis. Caminhou em direção ao ponto de ônibus. Nunca havia tomado ônibus quando criança, nem adolescente; sempre houvera um carro ou um táxi.

O ponto de ônibus. Pensou se ela estaria lá, o esperando. Todos os dias ela vinha e o aguardava. Entrava calada e sentava-se ao lado dele. Com seus encantos e sua voz de sereia o fazia esquecer de tudo durante a viajem. Ele nunca havia precisado tanto dela como agora. As coisas eram mais fáceis antigamente. Tinha uma esposa linda, filhos adoráveis, todo conforto e agradáveis finais de semana passados na serra. Mas, depois que as coisas tinham piorado, só ela ficara ao seu lado. Só ela o fazia sorrir e enxergar o colorido da paisagem. Só ela.

Enquanto caminhava, ele pensou se ainda queria encontrá-la. Neste tempo todo em que viajavam juntos ela não fazia mais do que o iludir. Ela era somente mais uma farsa em sua vida esvaziada. Sentia-se enganado por suas promessas e suas insinuações. Pensou que nem lhe daria ouvidos hoje. Nem sequer lhe daria um relance de olhar. Tinha que acabar com aquilo. Não precisava de ilusões quando a realidade lhe arrebentava o crânio. Ia lhe dizer que pegasse outro ônibus. Se preciso fosse, mudaria o horário.

Percebeu seu ônibus se aproximando e correu para a porta. Nem prestou atenção àqueles que aguardavam no ponto. Entrou e sentou-se bem lá na frente, sem ousar olhar para trás. Seu coração começou a palpitar quando sentiu sua presença ao lado do assento. Quando ela perguntou com sua voz doce e suave se podia sentar, ele não respondeu. Ela sentou-se mesmo assim e começou a lhe falar de como o dia havia amanhecido bonito. Ele respondeu que havia visto no jornal que uma bala perdida havia atingido na cabeça uma menina de 4 anos dentro de sua casa. O dia não podia ter amanhecido mais bonito depois disto. Mas ela não se deu por vencida e continuou. Com todas aquelas cores e sons de quem só quer ver o lado bom das coisas. Ele se irritou e, para maltratá-la, reparou como sua roupa verde estava ridícula e esfarrapada. Mas ela não se importou. Lançou-lhe um sorriso iluminado, como se acabasse de receber um elogio. Mas ficou quieta.

Ficou tão quieta que as faturas do mês tomaram conta de sua cabeça e ele começou a se sentir mal. Pensou que seria capaz de fazer uma loucura. Por instantes, compreendeu o desespero de certos gestos. Teve medo de enlouquecer. Percebeu então que não poderia passar os dias sem tê-la ao seu lado, naquele ônibus, e se arrependeu de tê-la maltratado. Não sabia o que dizer e continuou calado.

O ponto final chegou e ele teve que descer. Ela veio com ele. Ele a deixou vir. Assim, ainda poderia acreditar que amanhã seria um outro dia, e que seria um dia melhor.

Se a esperança é sempre a última que morre, que morresem juntos, mas ele não ia desistir.

Ainda não.